Relações Complementares
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Blog sobre psicologia.
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A psicanálise hoje: ciência ou psicoterapia?
O que desenvolverei a seguir é o meu ponto de vista pessoal sobre a psicanálise. O debate a respeito da natureza, do estatuto e dos fins da psicanálise, de início uma conversa curadora e que pouco a pouco se transformou em algo que ultrapassou largamente as fronteiras da terapia, sempre foi desde a origem do movimento analítico, muito aberto e ainda hoje não pode ser considerado finalizado. De fato, existem correntes de pensamento contrárias a este respeito. Na Itália, parece-me particularmente significativo, o fato de que as corporações tenham a intenção de incluir a psicanálise na categoria de psicoterapia apesar de não haver nenhuma referencia no texto de lei, nem a psicanálise nem a expressão (que teria podido criar confusão) “psicoterapias de tipo analítico”, justamente por causa da oposição das associações psicanalíticas interpeladas na época. Alguém pode certamente afirmar que a psicanálise é um tipo especial de psicoterapia, mas não deveria tentar impor esta sua opinião a toda uma classe de estudiosos, que, começando por Freud, tentaram sempre manter as regras científicas da sua disciplina. A democracia cultural impõe justamente o respeito a todas as correntes teóricas. Isto vale ainda mais para a psicanálise que se tornou há muito tempo um verdadeiro modo de abordar o conhecimento humano.Tanto é verdade que um intelectual que se respeite, mesmo podendo ignorar quase tudo da psicologia e da psicoterapia, não poderá dar-se ao luxo de desconhecer, as principais leituras da psicanálise, justamente porque é um assunto abordado por todos. De fato a psicanálise contribuiu para abrir questões novas e sutis, como o da objetividade das ciências, ocasião para vários debates interdisciplinares: o inconsciente diz respeito à ciência, porque diz respeito aos cientistas e à sua linguagem, sobretudo quando especulam sobre inferências, como por exemplo o big bang, os neutrinos, os “gravitoni”. Pergunta-se obviamente, como Pregogine quando cita a intervenção de Hadamart, qual o peso da fantasia e portanto do inconsciente, na criação destes modelos científicos.
A epistemologia científica está indissoluvelmente ligada ao axioma aristotélico, segundo o qual, a universalidade é o campo exclusivo da ciência. Uma grande parte do trabalho dos cientistas de todos os tempos correspondeu de acordo com Kuhn, a isolar fenômenos das constantes universais. Atualmente a física quântica, não poderia dispensar a constante de Planck. No campo da psicanálise, Freud colocou em Édipo, o que se viu de mais universal no homem e Jung foi o primeiro a pesquisar as constantes arquetípicas da fantasia. Embora representassem hipóteses de indubitável valor heurístico, tanto Édipo, quanto os arquétipos permaneceram como modelos ou interpretações que enquanto tais não fogem ao subjetivismo. Considerando no entanto a evolução do conceito ciência na época moderna, o fato de utilizar construções como Édipo e os arquétipos na investigação sobre o conhecimento humano, pode ser considerado um procedimento cientificamente válido. Isto porque em razão da natureza específica dos objetos de estudo (os quantum para a física e o inconsciente com os complexos para a psicanálise) tais construções assumem o papel de instrumentos necessários ao invés de fatores contaminadores.
Apesar disto, como observei numa publicação anterior, enquanto a psicanálise entendida como psicoterapia não oferece nenhuma dificuldade de compreensão, a psicanálise científica nunca deixou de ser objeto de discussões, apesar de ter se imposto sempre como uma ciência do inconsciente e de ter como objetivo claro, o autoconhecimento. Mas o que significam objetivamente o inconsciente e o si mesmo? A maior razão pela qual é tão difícil aceitar a psicanálise científica, está justamente na sua característica de ciência do subjetivismo, capaz de inverter o axioma aristotélico, segundo o qual só existe ciência a partir do particular, do subjetivo. Claramente o que é subjetivo, não pode ser nem universal, nem ser objetivo, isto é, não é objetivável em uma substância .Uma pessoa com sua história particular e com suas próprias idéias, com seus próprios valores pessoais e culturais, não pode reduzir-se a nenhum mapa neuronal. Em outras palavras a psique não equivale ao cérebro, mesmo havendo uma ligação indubitável entre eles. O biológico constitui somente o suporte material necessário para que a psique, enquanto que as motivações ou causas das várias perturbações psíquicas, pertencem ao campo das chamadas “questões humanas”, ligadas à linguagem do simbólico, ou seja, aos valores subjetivos e culturais da pessoa. Não entender ou não querer entender estas coisas, levou a aberrações no passado como por exemplo a atribuição de um prêmio Nobel a um neuro-cirurgião português Moniz “por sua descoberta do valor terapêutico da lobotomia pré-frontal, em algumas psicoses” ou a implantação dos programas de eugenética em esquizofrênicos em países como a Alemanha e a Suécia. Nos dias de hoje, muitas disfunções psíquicas inclusive neuroses são consideradas doenças mentais de origem hereditária pela psiquiatria oficial e tratadas por via farmacológica.
A psicanálise porém, não leva em conta a patologia nem a normalidade, não etiqueta as pessoas e nem busca novas substâncias mas ocupa-se do entendimento das verdades enunciadas pelo sujeito. Analisar é colocar à disposição da pessoa um espaço privilegiado em que possa falar e ser ouvida na sua verdade. O analisando pode tentar recuperar-se, percorrendo um caminho sabidamente em que se depara com resistências interiores cuja superação pode ser mais ou menos difícil. Isto porque, ao sentir-se ouvido e aceito tal como é, com o tempo passará a escutar-se e aceitar-se . Freud já havia insistido muito em sua obra e em suas aulas, sobre a questão das resistências implícitas neste trabalho. Há muitas coisas que não se quer aceitar e também o medo de se ver desfeitos os significados ilusórios tão caros, apoiando-se na vida mesmo à custa de alienações e neuroses. O homem nunca se cansa de contar para si mesmo histórias de si mesmo, até chegar a colocar-se em situações de dificuldade e de desconforto em confronto com a própria realidade.
Se o importante em análise são as verdades subjetivas, então os paradigmas, as teorias e a escola a que pertence o analista, correm o risco de tornar-se desvios e problemas. O analisando paga os honorários ao analista, para conhecer as próprias verdades, não importando se estas se encaixam num sistema ou não. Neste ponto devo dizer que lendo Freud tem-se as vezes a impressão que para ele “aprofundar” significa chegar necessariamente à teoria sexual. Mas apesar das várias escolas, a psicanálise enquanto abordagem da realidade da pessoa na minha opinião, continua sendo uma só: é aquela experiência única, segundo a qual nos aproximamos do sentido das próprias palavras e somos orientados para nós mesmos. Se a maioria dos distúrbios psíquicos não apresentam traços de patologia orgânica é porque os sintomas são expressões subjetivas, consistem em verdades a serem decifradas. A única finalidade da intervenção psicanalítica é de favorecer a revelação do inconsciente de modo que as palavras do analisando sejam não mais ignoradas, mas escutadas. Neste sentido os sintomas se tornam objetos de intervenção analíticas como por exemplo as contradições, os lapsos, os esquecimentos, os esforços para mudar ou não respeitar o acordo prévio sobre as regras e os fins da análise, as opiniões fantasiosas sobre a pessoa do analista, as resistências às questões específicas. Se a análise consistisse em fornecer conselhos sobre como se comportar ou soluções prontas para uso, então seria psicoterapêutica. Mas o analista sabe que deste modo cai no risco da armadilha das resistências e de vender aos clientes/analisandos, uma outra mercadoria, ao invés daquela pela qual estão pagando, transformando-os ao mesmo tempo em pacientes. Na minha opinião não haveria incompatibilidade a priori, se um analisando desejasse ou decidisse ir a um psicoterapeuta esperando “curar-se” de um sintoma. No entanto seria importante que ele pudesse analisar seu próprio desejo ou sua decisão.
O quadro no qual o analista e o analisando devem poder movimentar-se livremente é constituído, como nota corretamente. Szasz, pelo tipo de contrato feito inicialmente, sobre as regras da análise. É pois particularmente importante que o analista esclareça logo de início, qual é seu papel: analisar o material trazido à sessão, sem intervir diretamente com intenção terapêutica em relação aos sintomas. O analista não acredita na doença mental. Sobre isto a opinião de Szasz é radical: termos como esquizofrenia foram inventados pela psiquiatria moderna para catalogar o distúrbio na doença, mesmo não existindo histopatologia e fisiopatologia demonstráveis. Assim, patologizando o distúrbio, primeiro a psiquiatria e depois um certo tipo de psicanálise (a que se define como “psicoterapia analítica”), serviram e ainda servem do melhor modo possível à vontade política de controle social.
Uma outra preliminar de importância fundamental em análise, diz respeito à livre condição intelectual do analista. Se ele quiser ensinar autonomia e liberdade aos seus analisandos, deve ser ele mesmo livre e autônomo. Para isto, mesmo que pertença à uma corrente de pensamento ou à uma instituição analítica, só deve prestar conta a si mesmo, assim como não pode coerentemente valer-se de nenhuma outra legitimação que não seja aquela proveniente de sua conquista interior. Esta se obtém através de uma análise pessoal realizada autenticamente. Para isto, Lacan enfatizava que somente a análise pessoal pode adquirir valor didático. Por uma questão de honestidade deveríamos acrescentar que a análise pessoal não pode nem tornar-se um critério formativo obrigatório, pois alguns dos mestres mais importantes da psicanálise, nunca foram analisandos, mesmo se em um determinado momento tivessem podido fazê-lo. E também porque a análise não pode ser considerada o único modo absoluto para se chegar a um certo conhecimento do inconsciente. A este respeito Jung se mostrou particularmente aberto, afirmando que uma formação adequada naquele campo podia também derivar de uma experiência de vida particularmente rica e intensa, do conhecimento profundo de um grande número de pessoas, de ambientes e de culturas diversas. Enfim, a psicanálise pode certamente privilegiar alguns critérios normativos, mas não deveria ter (mesmo sendo difícil), nenhum tipo de preconceito.
Retornemos à questão da escuta.. Poder-se-ia pensar que não há necessidade de ir a um analista para ser escutado, que um amigo é suficiente e que além disso não se deveria esperar muito em termos de efeitos terapêuticos de algo “soft” como a escuta. Quanto à primeira objeção, gostaria de colocar francamente em dúvida a possibilidade de encontrar em um amigo ou parente, uma escuta verdadeira e profunda como a do analista. Seria o caso de nos perguntarmos quantas pessoas nos fizeram sentir realmente compreendidos e aceito por aquilo que somos para vermos quão rara e esta situação. O amigo alivia a solidão, troca ou tenta impor idéias ou opiniões, exalta a participação em projetos comuns, partilha experiências, faz parte da nossa vida, mas não é neutro; espera retorno, entra em competição, etiqueta facilmente, ressente-se e não dá a mínima importância para elucidar as determinações inconscientes da relação. Aliás, porque deveria fazê-lo se não sente a exigência disto e não é pago por isto? Em resumo, o amigo não está particularmente disposto a escutar.
A segunda objeção requer uma resposta mais articulada que concerne à lógica, mas que está diretamente ligada à anterior. Se a escuta é tão difícil de encontrar, em que consiste? E o que significa escutar-se? Escutar alguém, significa aproximar-se das verdadeiras motivações de sua fala, as que se escondem por exemplo, atrás de um ato falho ou de um sonho; quer dizer, trazer o interlocutor de volta à realidade.
Deste ponto de vista existe uma certa analogia entre a psicanálise e o taoísmo zen, cujos “Koan” produzem revelações frequentes sobre a realidade mais íntima do adepto. Existem essencialmente três tipos de respostas verbais possíveis. Posso responder somente em relação ao discurso aparente do meu interlocutor, dizendo se estou de acordo ou não com o que ele diz, mas não tratarei nesta intervenção de suas verdadeiras motivações. Se sair do plano aparente seguindo minha intuição, corro o risco de ser muito direto ou simplesmente de me enganar. A terceira possibilidade é a mais analítica e consiste em refletir sobre os pontos pouco claros, os esquecimentos, as contradições, as manifestações relatáveis e as resistências. Por exemplo eu poderia questionar a um analisando sobre sua mudança de humor, enquanto afirmava sua indiferença quanto ao tema em questão. Após intervenções como esta e dentro de um processo de transferência, o analisando poderia exprimir a intenção de interromper a análise, alegando motivações aparentemente objetivas. A intervenção do analista, em seguida, será no sentido de chamar a atenção para a ligação existente entre o desejo expresso do analisando e o que aconteceu antes. Deste modo o analisando acaba por entender que ele é o único responsável e protagonista de seu processo analítico. Ele entende que a análise lhe permite escutar-se , o que sempre havia procurado, mas não encontrará, nem nos livros, nem nos amigos, nem na namorada, nem no psiquiatra ou terapeuta. É sobre esta simples constatação que se baseia por exemplo, Lacan , quando introduz a distinção entre palavra vazia e palavra plena. A primeira caracteriza o sujeito que não se escuta, que faz rodeios, fofocas usa termos convencionais e trejeitos verbais etc... cujo vazio parece ser inversamente proporcional ao volume de palavras pronunciadas. É uma palavra que não satisfaz porque não consegue encontrar uma realização; com o tempo torna-se desoladora, caprichosa e suicida. Palavra enfocada, forte, mas também doce como um murmúrio da água, ou cheia da ironia que revela a antiga cumplicidade entre o riso e a verdade. Por um lado, portanto, a superficialidade e a alienação, por outro, a fonte do sujeito.
A psicanálise encontra na escuta o elemento que a caracteriza melhor. Escutar é a única coisa que o analista deve saber fazer, único serviço que ele tem o dever de oferecer a quem se dirige a ele. Acredito que a psicanálise se não pretende vender a própria alma, deve limitar-se honestamente a confirmar e a exercer na prática sua função analítica, reconhecendo os limites sobretudo os especificamente terapêuticos, ligados à sua natureza e ao seu propósito. Este objetivo não visa diretamente nem a cura dos sintomas, nem a resolução de problemas particulares, mas sim alcançar uma clareza suficiente com relação às próprias questões. A necessidade de falar com alguém que saiba escutar, é provavelmente tão antiga quanto o homem e forma uma dinâmica que pode ser encontrada em todos os tipos de relações interpessoais. A transferência, deveria ser vista como algo mais do que a busca inconsciente de certas figuras importantes do passado pessoal: como a procura de um interlocutor capaz de escutar.
Antoine Fratini
(Traduzione di Denise Maia)
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Psicanálise e ciência: de que ciência estamos falando? Maria de Fátima Chavarelli Campo Grande Este artigo procura contextualizar a psicanálise no corpo das escolas epistemológicas. A autora utiliza para suas reflexões, o neopositivismo, o pensamento de Carl R. Popper e Tomás S. Kuhn. Encontra na teoria dos paradigmas subsídios para a compreensão do significado da psicanálise enquanto ciência na modernidade. Constrói um “diálogo” entre a metapsicologia e a teoria dos paradigmas e, dessa forma, inscreve a psicanálise como uma ciência pós-paradigmática. Finalmente, conceitua o termo pós-paradigmático, como sendo um pensamento que causa rupturas e transcendências permanentes. Unitermos Psicanálise e ciência • a cientificidade da psicanálise • a psicanálise e a teoria dos paradigmas
Mais artigos:
Links recomendáveis para quem desejar se aprofundar mais no tema:
http://www.geocities.com/Vienna/2809/Rogers.html
http://portalsaofrancisco.com.br/alfa/calr-rogers/biografia-calr-rogers-3.php
http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=53&art=156
http://elisakerr.wordpress.com/concepcao-de-aprendizagem-de-carl-rogers/
Parte I - Perspectivas Atuais da Terapia Centrada no Paciente
Cap. 1 – O Caráter Evolutivo da Terapia Centrada no Paciente
“ …à medida que nossa cultura se torna menos homogênea, o indivíduo tem muito menos onde se apoiar. Não se pode ficar apenas confortavelmente instalado nas orientações e tradições da sua sociedade, pois encontra muitos problemas econflitos fundamentais da vida que giram em torno de si mesmo. ” (p. 18)
Uma perspectiva dinâmica
“ O grupo de especialistas neste campo trabalha com conceitos dinâmicos que são constantemente revistos à luz da experiência clínica permanente e dos resultados da investigação. A imagem é a de uma mudança fluída numa perspectivação geral do problema das relações humanas, mais propriamente do que uma situação em que se aplica mais ou menos mecanicamente uma teoria relativamente rígida.” (p. 20)
O objetivo deste volume
“A que termo se deve recorrer para indicar a pessoa com a qual o terapeuta contacta? Empregam-se termos tais como paciente, sujeito, consulente, analisando. Utilizamos cada vez mais frequentemente o termo cliente, ao ponto de o introduzirmos no título da obra, Cliente Centered Therapy. Escolhemo-lo apesar das deficiências do seu significado tal comoo dicionário o registra, porque parece convir melhor para transmitir a imagem dessa pessoa tal como nós a vemos. O cliente, como indica o significado do termo, é alguém que vem, ativa e voluntariamente procurar ajuda para resolver um problema, mas sem qualquer intenção de por de lado a sua própria responsabilidade na situação. Foi devido a estas conotações do termo que o adotamos, uma vez que evita o sentido de estar doente ou de ser o objeto de uma experiência, etc. O termo cliente, todavia, tem infelizmente determinadas acepções legais e, se surgir um termo melhor, recorreremos a ele. De momento, contudo, parece ser o mais adequado para designar o nosso conceito da pessoa que vem à procura de ajuda.
A adoção nas traduções portuguesas do termo paciente foi decisão dos Editores.” (p. 21)
A apresentação de uma escola de pensamento
“O objetivo claro destas páginas é apresentar um ponto de vista e deixar a outros o desenvolvimento de orientações diversas. Não haverá uma apologia desta apresentação unilateral. O autor considera que a atitude habitual de crítica perante aquilo que se pode definir como uma escola de pensamento é consequência de uma falta de compreensão da forma como a ciência se desenvolve. Em um novo campo de investigação que está se abrindo para estudos objetivos, a escola do pensamento é uma fase necesária. Onde a demonstração objetiva é limitada, a maior parte das vezes é inevitável elaborarem-se hipóteses marcadamente diferentes para explicar os fenômenos que se observam. Os corolários e as implicações destas hipóteses constituem um sistema que é uma escola do pensamento. Estas escolas do pensamento não podem ser abolidas por suposições ao nosso gosto. Quem tentar reconciliá-las por um compromisso encontrar-se-á perante um ecletismo superficial que não desenvolve a objetividade e que não leva a parte alguma. A verdade não se atinge através de concessões a diversas escolas do pensamento. O desaparecimento eventual das formulações opostas dá-se quando as soluções são determinadas pela demonstração das pesquisas ou quando ambos os tipos de hipóteses são absorvidos em uma perspectiva nova e mais penetrante que encara os problemas de um ângulo mais favorável, redefinindo então as soluções de uma forma até agora não captada.
Há desvantagens na apresentação de uma determinada orientação ou de uma escola de pensamento, mas serão minimizadas se tivermos consciência delas. Existe a possibilidade das hipóteses serem apresentadas como dogmas. Existe a possibilidade de que implicações emotivas em relação a um ponto de vista tornem improvável a percepção da demonstação contrária. Em oposição a esta desvantagem há a vantagem de se facilitar o progresso. Se possuirmos um sistema consciente de hipósteses que se demonstram e se formos capazes de por de lado, de rever, de reformular estas hipóteses à luz da experiência objetiva, teremos à nossa disposição um instrumneto válido, forças especiais que nos podem abrir novas zonas de conhecimento.
Por conseguinte, o leitor irá encontrar neste volume o desenvolvimento de um ponto de vista, a exposição de um sistema conexo de hipóteses, e não uma tentativa para apresentar outros sistemas, o que de fato seria feito de melhor forma por aqueles que os defendem. Expor-se-ão as demonstrações objetivas conseguidas na investigação e estabelecidas em relação às hipóteses, bem como a demonstração clínica na sua forma mais objetiva, a entrevista gravada. Esforçamo-nos por eliminar os preconceitos emotivos, mas o leitor poderá talvez decobrir pontos em que este objetivo não foi alcançado e em que, portanto, será ele a fazer as suas próprias correções.” (p. 22, 23)
Progressos no âmbito da prática
“Podemos dizer que no momento atual a concepção clínica em relação à terapia centrada no paciente foi alimentada pela ampla gama dos problemas e pela grande variação variação de intensidades dos seus trabalhos. Desde as crianaçs com leves alterações de comportamento até os adultos psicóticos, desde a pessoa que recebe alguma ajuda em duias entrevistas até os indivíduos que sofrem uma ampla reorganização da personalidade em cento e cincoenta entrevistas – tudo indica alguns dos limites dilatados da prática atual da terapia centrada no paciente.
Desenvolvimento de uma variedade de atividades
Há dez anos a consulta psicológica não diretiva era concebida como um processo de intercâmbio verbal, útil em primeiro lugar na consulta psicológica a adolecentes e a adultos. Viu-se que a terapia pelo jogo com crianças difíceis era eficaz quando orientada de um ponto de vista centrado no paciente.
A terapia de grupo, com crianças ou com adultos, foi realizada de forma eficiente aplicando-se as mesmas hipóteses que na consulta individual. Trabalho-se com adultos desadaptados, com estudantes que apresentavam problemas, com estudantes antes dos exames, com antigos combatentes, com grupos inter-raciais, com crianças e com seus pais.
Da experiência com a terapia de grupo surgiu o desejo de orientar as aulas de um modo centrado no paciente ou, de forma mais apropriada, centrada no aluno.
Experiências interessantes da utilização do método centrado no paciente em situações de grupo de confronto mostraram que este método tem uma contribuição a dar a grupos industriais, militares e outros. Também pode-se aplicar os princípios centrados no paciente à organização administrativa, ao trabalho das comissões e aos problemas de seleção e avaliação de pessoal.” (p. 26)
O desenvolvimento da teoria
Na complexa tarefa de viver, como na medicina, tanto a taoria como a prática são condições necessárias da compreensão, e o método de Hipócrates foi o único que alcançou um êxito amplo e generalizado. O primeiro elemento deste método é o trabalho duro, persistente, inteligente, responsável e contínuo no quarto do doente e não na biblioteca: a adaptação completa do médico à sua função, uma adaptação que está longe de ser meramente intelectual. O segundo elemento do método é a observação cuidadosa das coisas e dos acontecimentos, a seleção orientada pelo juízo nascido da familiaridade e da experiência, dos fenômenos mais evidentes e que se repentem, e a sua classificação e exploração metódicas. O terceiro elemento do método é a construção criteriosa de uma teoria – não de uma teoria filosófica, nem de um grande esforço de imaginação, nem de um dogma quase religioso, mas de uma modesta questão prosaica … um apoio útil para o caminho… Tudo isto pode sintetizar-se em uma palavra: o médico deve ter em primeiro lugar uma familiaridade íntima, habitual e intuitiva com as coisas; em segundo lugar, um conhecimento sistemático das coisas; em terceiro lugar, um modo de pensar efetivo acerca das coisas.
As teorias são mutáveis e fluídas. O fenômeno que elas procuram explicar é que permanece como fato irredutível. Talvez amanhã ou no próximo ano captemos uma formulação teórica muito mais compreensiva que abranja uma gama muito mais rica dos fatos fundamentais. Então esta nova teoria proporcionará mais e melhores hipóteses a por à prova, e um estímulo maior para uma busca progressiva da verdade.” (p. 30,31)