Parte I - Perspectivas Atuais da Terapia Centrada no Paciente
Cap. 1 – O Caráter Evolutivo da Terapia Centrada no Paciente
“ …à medida que nossa cultura se torna menos homogênea, o indivíduo tem muito menos onde se apoiar. Não se pode ficar apenas confortavelmente instalado nas orientações e tradições da sua sociedade, pois encontra muitos problemas econflitos fundamentais da vida que giram em torno de si mesmo. ” (p. 18)
Uma perspectiva dinâmica
“ O grupo de especialistas neste campo trabalha com conceitos dinâmicos que são constantemente revistos à luz da experiência clínica permanente e dos resultados da investigação. A imagem é a de uma mudança fluída numa perspectivação geral do problema das relações humanas, mais propriamente do que uma situação em que se aplica mais ou menos mecanicamente uma teoria relativamente rígida.” (p. 20)
O objetivo deste volume
“A que termo se deve recorrer para indicar a pessoa com a qual o terapeuta contacta? Empregam-se termos tais como paciente, sujeito, consulente, analisando. Utilizamos cada vez mais frequentemente o termo cliente, ao ponto de o introduzirmos no título da obra, Cliente Centered Therapy. Escolhemo-lo apesar das deficiências do seu significado tal comoo dicionário o registra, porque parece convir melhor para transmitir a imagem dessa pessoa tal como nós a vemos. O cliente, como indica o significado do termo, é alguém que vem, ativa e voluntariamente procurar ajuda para resolver um problema, mas sem qualquer intenção de por de lado a sua própria responsabilidade na situação. Foi devido a estas conotações do termo que o adotamos, uma vez que evita o sentido de estar doente ou de ser o objeto de uma experiência, etc. O termo cliente, todavia, tem infelizmente determinadas acepções legais e, se surgir um termo melhor, recorreremos a ele. De momento, contudo, parece ser o mais adequado para designar o nosso conceito da pessoa que vem à procura de ajuda.
A adoção nas traduções portuguesas do termo paciente foi decisão dos Editores.” (p. 21)
A apresentação de uma escola de pensamento
“O objetivo claro destas páginas é apresentar um ponto de vista e deixar a outros o desenvolvimento de orientações diversas. Não haverá uma apologia desta apresentação unilateral. O autor considera que a atitude habitual de crítica perante aquilo que se pode definir como uma escola de pensamento é consequência de uma falta de compreensão da forma como a ciência se desenvolve. Em um novo campo de investigação que está se abrindo para estudos objetivos, a escola do pensamento é uma fase necesária. Onde a demonstração objetiva é limitada, a maior parte das vezes é inevitável elaborarem-se hipóteses marcadamente diferentes para explicar os fenômenos que se observam. Os corolários e as implicações destas hipóteses constituem um sistema que é uma escola do pensamento. Estas escolas do pensamento não podem ser abolidas por suposições ao nosso gosto. Quem tentar reconciliá-las por um compromisso encontrar-se-á perante um ecletismo superficial que não desenvolve a objetividade e que não leva a parte alguma. A verdade não se atinge através de concessões a diversas escolas do pensamento. O desaparecimento eventual das formulações opostas dá-se quando as soluções são determinadas pela demonstração das pesquisas ou quando ambos os tipos de hipóteses são absorvidos em uma perspectiva nova e mais penetrante que encara os problemas de um ângulo mais favorável, redefinindo então as soluções de uma forma até agora não captada.
Há desvantagens na apresentação de uma determinada orientação ou de uma escola de pensamento, mas serão minimizadas se tivermos consciência delas. Existe a possibilidade das hipóteses serem apresentadas como dogmas. Existe a possibilidade de que implicações emotivas em relação a um ponto de vista tornem improvável a percepção da demonstação contrária. Em oposição a esta desvantagem há a vantagem de se facilitar o progresso. Se possuirmos um sistema consciente de hipósteses que se demonstram e se formos capazes de por de lado, de rever, de reformular estas hipóteses à luz da experiência objetiva, teremos à nossa disposição um instrumneto válido, forças especiais que nos podem abrir novas zonas de conhecimento.
Por conseguinte, o leitor irá encontrar neste volume o desenvolvimento de um ponto de vista, a exposição de um sistema conexo de hipóteses, e não uma tentativa para apresentar outros sistemas, o que de fato seria feito de melhor forma por aqueles que os defendem. Expor-se-ão as demonstrações objetivas conseguidas na investigação e estabelecidas em relação às hipóteses, bem como a demonstração clínica na sua forma mais objetiva, a entrevista gravada. Esforçamo-nos por eliminar os preconceitos emotivos, mas o leitor poderá talvez decobrir pontos em que este objetivo não foi alcançado e em que, portanto, será ele a fazer as suas próprias correções.” (p. 22, 23)
Progressos no âmbito da prática
“Podemos dizer que no momento atual a concepção clínica em relação à terapia centrada no paciente foi alimentada pela ampla gama dos problemas e pela grande variação variação de intensidades dos seus trabalhos. Desde as crianaçs com leves alterações de comportamento até os adultos psicóticos, desde a pessoa que recebe alguma ajuda em duias entrevistas até os indivíduos que sofrem uma ampla reorganização da personalidade em cento e cincoenta entrevistas – tudo indica alguns dos limites dilatados da prática atual da terapia centrada no paciente.
Desenvolvimento de uma variedade de atividades
Há dez anos a consulta psicológica não diretiva era concebida como um processo de intercâmbio verbal, útil em primeiro lugar na consulta psicológica a adolecentes e a adultos. Viu-se que a terapia pelo jogo com crianças difíceis era eficaz quando orientada de um ponto de vista centrado no paciente.
A terapia de grupo, com crianças ou com adultos, foi realizada de forma eficiente aplicando-se as mesmas hipóteses que na consulta individual. Trabalho-se com adultos desadaptados, com estudantes que apresentavam problemas, com estudantes antes dos exames, com antigos combatentes, com grupos inter-raciais, com crianças e com seus pais.
Da experiência com a terapia de grupo surgiu o desejo de orientar as aulas de um modo centrado no paciente ou, de forma mais apropriada, centrada no aluno.
Experiências interessantes da utilização do método centrado no paciente em situações de grupo de confronto mostraram que este método tem uma contribuição a dar a grupos industriais, militares e outros. Também pode-se aplicar os princípios centrados no paciente à organização administrativa, ao trabalho das comissões e aos problemas de seleção e avaliação de pessoal.” (p. 26)
O desenvolvimento da teoria
Na complexa tarefa de viver, como na medicina, tanto a taoria como a prática são condições necessárias da compreensão, e o método de Hipócrates foi o único que alcançou um êxito amplo e generalizado. O primeiro elemento deste método é o trabalho duro, persistente, inteligente, responsável e contínuo no quarto do doente e não na biblioteca: a adaptação completa do médico à sua função, uma adaptação que está longe de ser meramente intelectual. O segundo elemento do método é a observação cuidadosa das coisas e dos acontecimentos, a seleção orientada pelo juízo nascido da familiaridade e da experiência, dos fenômenos mais evidentes e que se repentem, e a sua classificação e exploração metódicas. O terceiro elemento do método é a construção criteriosa de uma teoria – não de uma teoria filosófica, nem de um grande esforço de imaginação, nem de um dogma quase religioso, mas de uma modesta questão prosaica … um apoio útil para o caminho… Tudo isto pode sintetizar-se em uma palavra: o médico deve ter em primeiro lugar uma familiaridade íntima, habitual e intuitiva com as coisas; em segundo lugar, um conhecimento sistemático das coisas; em terceiro lugar, um modo de pensar efetivo acerca das coisas.
As teorias são mutáveis e fluídas. O fenômeno que elas procuram explicar é que permanece como fato irredutível. Talvez amanhã ou no próximo ano captemos uma formulação teórica muito mais compreensiva que abranja uma gama muito mais rica dos fatos fundamentais. Então esta nova teoria proporcionará mais e melhores hipóteses a por à prova, e um estímulo maior para uma busca progressiva da verdade.” (p. 30,31)


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