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Aconselhamento Psicológico: Questões Introdutórias

 Maria Luisa Sandoval Schmidt 

“ Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada.” Walter Benjamin.

 1.1  Uma referência histórica 

Até meados do século XX, a prática de Aconselhamento Psicológico esteve bastante determinada pelo instrumnetal que merecera a atenção de grande parte dos pesquisadores: os testes psicológicos. Por esta razão, as práticas de atendimento psicológico enfatizavam o psicodiagnóstico. Orientação, indicações ou mesmo conselhos, consistiam na contrapartida de minuciosos exames que se faziam do indivíduo (ou de seu problema), a partir dos testes.

 

Rogers começou sua vida profissional atendendo crianças e adolescentes numa clínica em Rochester, Nova Yorque. Sua prática era a dominante: fazer diagnóstico e entrevistas de aconselhamento. Rogers faz uma referência a este período que nos parece significativa. Ele diz:

 

“ Realizei estudos diagnósticos de crianças e adolescentes e elaborei recomendações para tratamento; em 1928 desenvolvi um inventário para avaliação do mundo interior da criança, que – Deus me perdoe – continua a ser vendido aos milhares.”

 

É contudo do interior desta prática predominantemente diagnóstica, centrada no problema (da criança, do adolescente, do adulto) que Rogers começa a desenvolver suas idéias inovadoras. Questionando-a, ele vai aos poucos invertendo os focos: do problema para a pessoa do cliente; do instrumental de avaliação para a relação cliente-conselheiro; do resultado para o processo.

 1.2  Aconselhamento, orientação e psicoterapia 

Partindo da constatação de que uma escuta empática por parte do conselheiro tinha, por si, um efeito facilitador do processo de auto-exploração e mudança do cliente, Rogers começa a desenvolver a proposta de um tipo de intervenção psicológica fundamentada, por um lado, no aperfeiçoamento das atitudes do conselheiro que ensejam esta função facilitadora e, por outro, no pressuposto de que o cliente é capaz de viver e elaborar suas experiências de forma integradora, quando se engaja em uma relação com um conselheiro que não o julga, nem avalia.

 

Do ponto de vista de uma entrevista de ajuda, o principal é receber o cliente e facilitar para que ele se posicione diante de seu sofrimento psíquico.

 

Por outro lado, não se supõe que o conselheiro seja um eclético, no sentido de atuar em diferentes abordagens, conforme o gosto do freguês. A função do conselheiro coloca-se no modo de acolhimento que permite explorar, com o cliente, não apenas a chamada queixa, mas também a forma mais adequada de lidar com ela. Da decisão  sobre este segundo aspecto, o cliente não está excluído. A partir dos primeiros contatos entre cliente e conselheiro o processo pode levar tanto à formulação de um contrato de psicoterapia quanto a uma orientação ou ao encaminhamento para outro profissional ou instituição.

 

Desta forma, o conselheiro – dentro de uma perspectiva que deriva da Abordagem Centrada na Pessoa – constitui-se como um profissional que recebe uma certa gama de demandas e que possui recursos e flexibilidade para propor alternativas de ajuda, incluindo informação, orientação, encaminhamento e psicoterapia. Destas alternativas fazem parte aquelas que incorporam outras pessoas – família, grupo social – desde que elas estejam envolvidas com o indivíduo que silicita ajuda e se disponham a um engajamento no processo.

 1.3 Aconselhamento e psicoterapias breves e focais 

Às psicoterapias breves corresponde uma maneira específica de delimitar e lidar com o tempo do atendimento psicológico. Esta maneira de lidar com o tempo implica, muitas vezes, na adoção de estratégias que exigem do terapeuta um papel mais ativo, diretivo, se quisermos. Ou seja, implica em atribuir ao psicoterapeuta a condução do processo, a partir de uma avaliação psicodinâmica e tendo em vista atingir determinados objetivos prefixados.

 

A delimitação de um certo número de sessões ou de um determinado prazo para o atendimento pode ser uma necessidade ou opção do Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa, especialmente quando praticado em instituições. Nestes casos, no entanto, a atitude do conselheiro não muda: a direção e a configuração do processo continuam pertencendo ao cliente. O conselheiro não adota estratégias que impliquem um papel mais diretivo. A delimitação do tempo é feita com o cliente e supomos que é um dado com o qual ele lidará, explorando temas, conflitos e sentimentos conforme sua possibilidade e vontade. Se o cliente sabe quanto tempo terá, confiamos que saberá como melhor aproveitá-lo. Esta afirmação só tem peso se considerarmos o pressuposto básico desta abordagem: o de que o cliente é capaz de autodeterminação e regulação.

 

Acredita-se, ainda, que um número pequeno de encontros com o conselheiro, ou mesmo um único, tem uma função terapêutica e pode ser suficiente para que o cliente se organize internamente e prossiga sem ajuda. Condição para isso, voltamos a destacar, é a presença facilitadora e a atitude empática do conselheiro.

 

Ainda, à guisa de conclusão, é importante salientar que o Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa enfatiza sobretudo as atitudes do conselheiro ( e não a sua ação) como condições necessárias e suficientes para que o processo de auto-exploração e crescimento ocorra no cliente. Esta condição de suficiência das atitudes (empatia, congruência e aceitação) do psicoterapeuta permite distinguir o  Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa das terapias focais, que consideram estas atitudes necessárias, mas não suficientes. Daí o porquê de recorrerem a estratégias mais ativas e diretivas.

 1.4  A figura do conselheiro 

Para nós, a distinção está fundamentada no tipo de disponibilidade e flexibilidade que permite ao psicólogo-conselheiro uma visão mais abrangente das possibilidades de propiciar ajuda psicológica.

 

Nesta perspectiva, o aconselhamento psicológico se nos apresenta como modelo clínico (mais amplo que o psicoterapêutico), aplicável em diferentes situações institucionais. A prática de Aconselhamento Psicológico, assim concebida, sugere uma modificação da visão do psicólogo clínico, reorientando seus recursos pessoais, teóricos e técnicos no sentido de criar espaços de maior continência para as diferentes demandas de ajuda psicológica.

 

Referências Bibliográficas:

 

Aconselhamento psicológico centrado na pessoa/ Rachel Lea Rosenberg (org.) – São Paulo: EPU, 1987. Temas Básicos de Psicologia;  v. 21

    


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